A Quebra do Ovo
"A ave luta para sair do ovo. O ovo é o mundo. Quem nasce deve destruir um mundo."
(Trecho de Demian - Hermann Hesse)
Enfim me descubro.Destruo o céu de estrelas, meu refúgio de outrora e vejo onde realmente estou.Nem de longe é tão belo quanto o céu de estrelas, mas sei que posso deixá-lo belo.Belo e palpável, como o céu nunca pôde ser.Em meu novo cenário minhas flores serão plantadas por mim.Eu que hei de alimentar minhas aves. Meus pés sentirão o cascalho no fundo do rio.Não haverá nada pintado e nem espelhos.Não haverá nada de ilusório e intocável. Nada a não ser o que sonho durante o sono.Pouco a pouco, da minha vontade nascerão estrelas. Elas serão só o adorno de um mundo real e não a miragem que alegra o homem perdido no deserto antes de sua morte.O bom não será superestimado enquanto o mal é oprimido, ambos terão de conviver como irmãos que sabem um do valor do outro.Pensamento nenhum será banido e a moral do mundo não será uma regra e a vida será levada de modo que de tão completa, excessos serão desnecessários.E então terei me encontrado por completo.
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O Jardineiro e a Rosa
"Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor."
( Trecho de A Flor e a Náusea, Carlos Drummond de Andrade )
Um rapaz morreu por uma rosa.O perfume o havia embriagado. O rapaz nunca o havia sentido realmente, mas ele era tão belamente descrito pelos escritores e jardineiros mais experientes, que não houve como não se embriagar.A beleza daquela rosa o havia encantado. Apesar de nunca tê-la visto o jovem rapaz vira inúmeros retratos da bela rosa, tendo até inclusive pintado alguns também belíssimos. Aquela flor tão venerável, tão casta e cheia de glória! Ah como é fácil se apaixonar por aquela rosa! Os jardineiros responsáveis pelo seu cultivo são tão sinceros, carismáticos e apaixonados! Como não querer se tornar um deles? Aquele rapaz se enpenhou tanto no aprendizado do belo ofício!Já naquele tempo havia quem colocasse em dúvida a superioridade da rosa. Dizia-se que há algum tempo em certo vilarejo tornara-se obrigatório o consumo diário do chá daquela erva, que segundo muitos nem flor tinha.Com o tempo op sabor amargo da infusão adoeceu os homens, que pouco a pouco perderam a capacidade de sonhar.Os jardineiros diziam que era absurdo! Que com certeza se tratava de outra erva, afinal o chá daquelarosa era doce, de difícil obtenção, porém doce.O rapaz e alguns amigos decidiram que era hora de por fim na resistência à rosa. Armaram-se, uniram gente suficiente e seguiram rumo à defesa da rosa.Confusão, correria e eis que em menos de meia hora mais da metade dos jardineiros havia sumido entre alvejados e desistentes.O rapaz se perguntava como podiam desistir de causa tão nobre e justa. Lhe parecia tão claro o merecimento da rosa. Era claro que merecia ser amada e cultivada por todos, ao menos aos seus olhos.Pensando nisso sentiu uma dor lancinante invadir seu estômago. Fôra atingido e sangrava.Os amigos tentaram socorrê-lo em meio à confusão do conflito.Antes que asas da morte o envolvessem a última coisa que pensou foi na cor da belíssima rosa: vermelho, como o sangue que lhe abandonava o corpo.Marcadores: ódioda hipocresia