1.04.2009

Cidade da Chuva

Ela olhou pela janela. Os carros voltavam a passar pela rua com frequência, amanhecia.
Havia mais uma vez virado a noite lendo. Não trabalhava, nem exercia atividade alguma naqueles dias, o que lhe deixava com tempo para pensar e se recordar. Tempo demais.
Estava decidida a não dormir. Não que se importasse, mas sabia que se passasse muito tempo na cama as pessoas da casa ficariam preocupadas e começariam a peruntar incessantemente o que a deprimia.
Tomou um banho para fazer ceder a tensão gerada pela noite insone em má posição e decidiu dar uma volta.
Moleton surrado, blusinha cavada , tênis e fones de ouvido com música boa em altíssimo volume; tudo bem ao seu estilo.
"...é bom andar a pé, sem sapato, sem direção à toa... é bom andar a pé devagar para aguentar o calor e olhar a vista pro mar melhor..."
"Seria um bom fundo musical se eu não estivesse entre prédios, carros e sob as nuvens paulistanas" pensou ela.
O tempo estava nublado e triste.
"Já que não há praia, podia ao menos não chover."
Ela então avistou ao longe uma figura que lhe pareceu familiar. Ao se distrair, tropeçou em uma das muitas protuberâncias existentes na calçada, o que não a fez cair, mas gerou uma cena muitíssimo engraçada.
A pessoa que vinha ao longe se aproximou e foi embora. Ela não o conhecia.
"Maravilha!!! Tirem seus filhos da rua e saiam todos do caminho, o desastre ambulante está passando!!!". Ela riu sozinha e decidiu tomar algo.
As gotas começaram a cair do céu.
"Se eu continuar tomando chuva com a frequência com que venho tomando, meus encostos vão procurar o sindicato e vou acabar sem pulmões".
Avistando um supermercado entrou atrás de abrigo e de algo para beber.
Ela decidiu camuflar-se entre as donas de casa que faziam suas compras desesperadamente para chegar em casa a tempo de preparar o almoço. Pegou um carrinho e começou a andar despreocupadamente.
Na seção de produtos de limpeza havia uma conversa animada a respeito de técnicas de desengorduramento do inox do fogão, na seção de enlatados discutia-se a respeito dos perigos do botulismo.
Ela chegou a seção de bebidas.
"Suco de caixinha, leite de soja, iogurte ou uma cerveja?"
"Difícil escolher?"
Ela virou-se assustada. Estava longe de todos os lugares a que frequentava, não esperava encontrar ninguém conhecido, mas aquela voz lhe era familiar.
"Miguel! Que mundo pequeno, não? O que está fazendo por aqui?"
"Compras... sabe como é..."
"Dããã... claro!!! Estamos em um supermercado!!!" Pensou ela corando.
"E você? Fazendo o que? Compras do mês?"
Ela então olhou embaraçada para o carrinho.
"Pense rápido Júlia!!!" Pensou, antes de responder: "Então, ia fazer comprar, mas acabaram de me ligar. Parece que estou atrasada para um compromisso com os amigos".
"Isso aí, agenda movimentada... gente importante é outra história..." Disse ele rindo.
"É nada, vou com umas amigas que querem fazer compras a um shopping. Sabia que não suportoesse tipo de programa? Não tenho paciência."
"Gostaria que todas as mulheres fossem como você."
"Provávelmente gostaria que sua esposa fosse assim" pensou ela, olhando rapidamente no aro dourado que estava no dedo dele.
"Bom, já estou atrasada. Vou pegar o meu chá verde gelado e ir nessa. Até logo."
Ela despidiu-se e foi até o caixa. Na pressa havia pego o chá verde gelado.
"Não vai me matar.".
Ela não queria correr o risco de encontrar a esposa e os filhos dele.
"Assim posso olhá-lo em paz. Sem pesos de consciência".Pensou.
Pagou pelo seu chá e olhou para a rua. Ainda chovia, mas a chuva havia enfraquecido.
"Meus pulmões e encostos que me perdoem.".
Saiu caminhando sob a chuva fina da cidade sem praias.

Marcadores: