Engano Moral
Esquecem da belezaNegam a canduraGeram a descrençaA tornam flor impuraNão há inteligência?O fim da flor que curaMiserável por definiçãoOstenta os traços dos horrores que criaramRota flor posta sob a podridãoAs palavras sujas trazem medo e opressãoLança em brasa a que alguns nos condenaramMarcadores: ódioda hipocresia
ANAlfabetismo
Vagando pelas ruas
Vou sem rumo e sem direção
Meus olhares contenho com pressa
Pois não trago nenhuma intenção
Meus segredos são muito dispersos
Meus diários de imaginação
Minhas horas eu passo com versos
Meus segredos se moldam, se vão
Quem me lê, o faz do modo inverso
Não me aplico a sua tradução
Já não caibo em nenhuma expressão
Não me encaixo no mundo expresso
Eu expresso um mundo em vão
.
Eu não sigo em caminho reto
Traço rumos de modo discreto
Não cultivo os meus desafetos
Sou feita de letras
E o mundo é concreto
De mim, ANAlfabetos
Marcadores: Sentidos
Moça de Lar
Olha aquela moça
E não deixe que ela o veja
Ela leva-te ao pecado
Por mais santo que tu sejas
Ela esconde no decote
Os fios que lhe trazem dote
E traz rente às suas pernas
Um saquinho sem reservas
Ela sempre leva ervas
Nunca se sabe o que delas fará
Só se sabe que fim não terá
E que ao teu lado ela não tardará
Uns pecados te ensinará
Dois patifes ela há de pagar
Seus belos traços há de amaldiçoar
E a uma criança ela volta
Seu lar
Marcadores: ódioda hipocresia
Outras fases
Um sorriso que é o meu lugar
Campo vasto pra imaginar
Uns olhares pra desvendar
Uns defeitos a perdoar
(e é claro, pra discordar)
Outros gostos
Outras faces
Outros cheiros
Novas fases
Outros olhos tão vorazes
Uns brilhantes e uns vulgares
Outro tempo, outros lugares
...
Há um ímpar entre pares
Marcadores: dias
Violão
Sacio minha sede nas cordas do violão
Seco minhas lágrimas
Calo pensamentos
Abafo meus tormentos
Adio a decisão
Abafo meus soluços nas cordas do violão
Escondo meus problemas
Os rasgo com as mãos
Me perco em meus silêncios
Eu sigo em contramão
Seguindo o meiofio
Levando em minhas mãos
O peso e o desafio
A corda e o violão
Marcadores: Sentidos
Momento Perdido
Há momentos do findar do dia
Em que o olhar vagueia sem rumo
Nesses momentos eu falto. Sumo
Meus olhares,calados. Minha alma, vadia.
Olho....
... lembro...
Fico e vou ao mesmo tempo
Sonho....
Me perco
Alço voo em pensamento
E visito um outro tempo
Larga de contentamento
Largo o fio que mede o tempo
E caminho sobre o vento
Volto a mim neste momento
Apenas fico
E então já perdi muito
Ganho algo ao me perder
Que perco logo ao me encontrar
E me é inútil procurar
Porque não bastaria ver
A menos que sosse de modo fortuito
E então me recolho em um pensamento aleatório
E me torno alheia ao que penso
Torno-me alheia ao bom senso
Sou então parte, e já não me pertenço
Marcadores: dias, Sentidos
Cidade da Chuva
Ela olhou pela janela. Os carros voltavam a passar pela rua com frequência, amanhecia.
Havia mais uma vez virado a noite lendo. Não trabalhava, nem exercia atividade alguma naqueles dias, o que lhe deixava com tempo para pensar e se recordar. Tempo demais.
Estava decidida a não dormir. Não que se importasse, mas sabia que se passasse muito tempo na cama as pessoas da casa ficariam preocupadas e começariam a peruntar incessantemente o que a deprimia.
Tomou um banho para fazer ceder a tensão gerada pela noite insone em má posição e decidiu dar uma volta.
Moleton surrado, blusinha cavada , tênis e fones de ouvido com música boa em altíssimo volume; tudo bem ao seu estilo.
"...é bom andar a pé, sem sapato, sem direção à toa... é bom andar a pé devagar para aguentar o calor e olhar a vista pro mar melhor..."
"Seria um bom fundo musical se eu não estivesse entre prédios, carros e sob as nuvens paulistanas" pensou ela.
O tempo estava nublado e triste.
"Já que não há praia, podia ao menos não chover."
Ela então avistou ao longe uma figura que lhe pareceu familiar. Ao se distrair, tropeçou em uma das muitas protuberâncias existentes na calçada, o que não a fez cair, mas gerou uma cena muitíssimo engraçada.
A pessoa que vinha ao longe se aproximou e foi embora. Ela não o conhecia.
"Maravilha!!! Tirem seus filhos da rua e saiam todos do caminho, o desastre ambulante está passando!!!". Ela riu sozinha e decidiu tomar algo.
As gotas começaram a cair do céu.
"Se eu continuar tomando chuva com a frequência com que venho tomando, meus encostos vão procurar o sindicato e vou acabar sem pulmões".
Avistando um supermercado entrou atrás de abrigo e de algo para beber.
Ela decidiu camuflar-se entre as donas de casa que faziam suas compras desesperadamente para chegar em casa a tempo de preparar o almoço. Pegou um carrinho e começou a andar despreocupadamente.
Na seção de produtos de limpeza havia uma conversa animada a respeito de técnicas de desengorduramento do inox do fogão, na seção de enlatados discutia-se a respeito dos perigos do botulismo.
Ela chegou a seção de bebidas.
"Suco de caixinha, leite de soja, iogurte ou uma cerveja?"
"Difícil escolher?"
Ela virou-se assustada. Estava longe de todos os lugares a que frequentava, não esperava encontrar ninguém conhecido, mas aquela voz lhe era familiar.
"Miguel! Que mundo pequeno, não? O que está fazendo por aqui?"
"Compras... sabe como é..."
"Dããã... claro!!! Estamos em um supermercado!!!" Pensou ela corando.
"E você? Fazendo o que? Compras do mês?"
Ela então olhou embaraçada para o carrinho.
"Pense rápido Júlia!!!" Pensou, antes de responder: "Então, ia fazer comprar, mas acabaram de me ligar. Parece que estou atrasada para um compromisso com os amigos".
"Isso aí, agenda movimentada... gente importante é outra história..." Disse ele rindo.
"É nada, vou com umas amigas que querem fazer compras a um shopping. Sabia que não suportoesse tipo de programa? Não tenho paciência."
"Gostaria que todas as mulheres fossem como você."
"Provávelmente gostaria que sua esposa fosse assim" pensou ela, olhando rapidamente no aro dourado que estava no dedo dele.
"Bom, já estou atrasada. Vou pegar o meu chá verde gelado e ir nessa. Até logo."
Ela despidiu-se e foi até o caixa. Na pressa havia pego o chá verde gelado.
"Não vai me matar.".
Ela não queria correr o risco de encontrar a esposa e os filhos dele.
"Assim posso olhá-lo em paz. Sem pesos de consciência".Pensou.
Pagou pelo seu chá e olhou para a rua. Ainda chovia, mas a chuva havia enfraquecido.
"Meus pulmões e encostos que me perdoem.".
Saiu caminhando sob a chuva fina da cidade sem praias.Marcadores: Passarelas