12.26.2008

Rotina

Vejo os olhos, miçangas pretinhas feito jaboticabas maduras.
Olhou-me com cara de quem quer algo. Eu sempre atendia aos pedidos dela.
Cada pessoa tem seu modo de exercer o poder sobre as outras. Algumas o fazem usando força, outras amolecendo corações, algumas apenas olham com um jeitinho característico de quem convence. Ela sempre me contornava usando este último modo.
"Que queres?"
"Como sabes que de ti quero algo?"
"E não queres?"
"Sabes que quero. Fala-me algo bonito."
Mulher tem dessas coisas... do nada se sentem vulneráveis e fazem algo para ter atenção ou qualquer outra prova de que você está com elas.
Não gosto de fazer poemas quando estou sob pressão, qualquer coisa criada em tal situação parece falseada.
"Porque você quer que eu lhe diga algo bonito? Por acaso dúvida que eu te ame de verdade?"
"Não, apenas senti vontade de ouvir algo..."
"Me diga você algo bonito" Ela sempre se enrolava um bocado, mas acabava falando algo. no início as palavras soavam como as de um adolescente apresentando um seminário, mas logo ela se empolgava e as palavras tomavam ar sincero.
"Eu te olho e vejo... você, quer algo mais bonito?"
"Estamos sem inspiração no dia de hoje!!!"
"Não sou boa nisso, você sabe muito bem."
Ela então se afastou virando para o outro lado da cama com os braços cruzados e fazendo biquinho. Apesar de tê-la amado muito, desde o primeiro dia que falei com ela, achei-a ocasionalmente infantil. Quando ela cruzava os braços e fazia bico como naquela ocasião, tinha certeza de sua infantilidade.
"Ah... você fica tão bonita quando faz esse bico... desfaça-o ou vou mordê-lo."
Ela não desfez, o que deu início a uma verdadeira guerra de mordidas e cutucões.
Ela tornava minhas tardes muitíssimo agradáveis, mas com o tempo foi passando a fazer parte da rotina e eu nunca fui bom em lidar com rotinas, então resolvi dar um novo rumo às coisas e abrir mão daquelas jaboticabas tão pretas que me olhavam suplicantes vez ou outra.
Depois disso houve um certo silêncio...

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