12.14.2008

Passarelas - Parte II

(...)

"Ótimo!!" pensou ela.
Estava a três pontos do seu destino.
"Fodam-se os pulmões!". Desceu e seguiu caminhando na chuva.
Suas meias já estavam ensopadas. E ela já podia sentir a gripe se aproximando.
Resolveu buscar abrigo em uma livraria que havia no caminho.
"Boa tarde, posso ajudar?" Um rapazinho magricela perguntou com ar simpático.
"A menos que você tenha roupas secas e um par de pulmões novos não." pensou contendo-se para não exteriorizar seus pensamentos.
"Não, obrigada, estou só me mantendo fora da chuva. Vou dar uma olhada nos livros.".
Notando o esforço para não mandá-lo às favas, o rapaz se afastou.
Ela foi direto na prateleira onde estavam os livros de poesia.
Sempre havia gostado de poesias. Escrevê-las, leê-las. Com poesia, qualquer coisa!
O magricela, olhava-a com ar assustado.
"Hora de fingir ser educadinha...". Pegou um livro de literatura portuguesa, e se dirigiu até o rapaz: "Moço, vai ser esse aqui, sabe se é bom?".
A feição do rapaz mudou automaticamente. "Esse é um dos meus preferidos. Vai achar a linguagem meio difícil no começo, mas creio que vai gostar.".
"Linguagem difícil o caralho!!! É português de portugal, fichinha pra quem já leu eça de Queiroz" ela deixou escapar. Para a sua surpresa, o rapaz não se intimidou.
"Eça de Queiroz é realmente bom, mas não se compara a Fernando Pessoa".
"Veado, vem falar mal de Eça de Queiroz pra mim?" pode se conter. "Você tah comparando coisas incomparáveis!!!!" disse enfurecida.
A discussão estendeu-se até o final da chuva, ela comprou o livro e saiu da loja arrantando seus sapatos ensopados.
Como conseguia ser tão mal humorada e tão 'sociável' ao mesmo tempo?
Chegou à faculdade.
A faculdade era um lugar muito complexo. Mulheres competiam no quisito 'melhor modelito', mas ela nunca participava dessas competições. Estava sempre de calça jeans, blusinha e tênis.
Estar ensopada e descabelada não fazia dela uma beldade, mas nem por isso estava feia.
Tinha olhos grandes.
Naquele lugar sentia-se um pássaro fora do ninho, exceto quando estava com seus amigos.
Eram pessoas totalmente fora da média. ou muito inteligentes, ou muito bonitos, ou muito estranhos, ou muito engraçados... não havia um normal entre eles.
Um chato se aproximou.
"Oi!!! Veio nadando? Tah toda molhada!!!"
"Oi." Disse com cara de poucos amigos.
"Foi só uma brincadeira, não precisa me trucidar com os olhos."
"Posso ir sem rir, ou vou ter que forçar a risada?". Dito isso, virou e seguiu andando.
Odiava esse tipo de homem. Eram chatos, inconvenientes, sem graça e sempre que havia possibilidade davam em cima dela.
"Poxa, assim você quebra as pernas do rapaz" Era um amigo.
"Foda-se! nunca disse pra ele que ele podia falar comigo sem tomar uma dessas... como você está?".
As pessoas de lá se dividiam em grupos: amigos, colegas, chatos, conhecidos e promessas.
Amigos eram aquelas pessoas a quem ela contava os segredos e com quem ela se importava; colegas eram as pessoas com que ocasionalmente conversava, os chatos dispensam descrição, os conhecidos eram as pessoas do 'Oi!' e 'Tchau!'; promessas eram as pessoas que de algum modo a intrigavam.
(...)
Continua..

Marcadores: