Passarelas - Parte I
Só sei a baixa temperatura
Dos ócios que me acompanham
Dos excessos e das lacunas
Espero apenas a trégua..."
A trégua não veio mas ainda era esperada.
Entrou no shopping e lembrou das outras vezes em que lá estivera. Fobia social... era só o que lhe faltava.
Comprou seu bilhete e sob garoa, hora fina hora espessa, saiu de lá desejando que algo fora do comum acontecesse.
Se perdeu de sí e por muito pouco não atravessou a rua em frente a carros. Quase não atravessava aquelas ruas, sobretudo depois de saber que um amigo havia morrido atropelado alí naquela avenida.
Passarela... passarela...
Enquanto subia a ladeira segura que passava por cima dos carros avistou os prédios. Em um deles ela havia estado e conhecido coisas das quais não queria lembrar mas não podia esquecer.
"Trégua.. trégua".
Ao chegar do outro lado da passarela, notou que uma fila de coletivos estavam prestes a sair e a menos que correse, não conseguiria subir em nenhum deles. "Que se foda, hoje eu tenho tempo..." pensou ela.
Seus cabelos já pingavam, mas ela não se importava, desde que seus livros estivessem secos na segurança de seu lar, podia cair até uma tempestade. Como diziam alguns amigos "Tomar chuva é bom pra tirar encosto".
Finalmente chegou o coletivo. Ela embarcou e caminhou calmamente bendizendo sua paciência e vontade de esperar o próximo. Ela iria sentada, diferentemente dos apressadinhos que corriam para pegar os coletivos anteriores. A vida afinal não era tão ruim assim.
Olhando pela janela, se pegou lembrando das proibições que tinha violado. Era engraçado pensar que antes só visitava aquela região muito raramente e por motivos muito específicos. Agora que os motivos haviam cessado, estava ali quase todos os dias.
Soltou uma gargalhada.
A chuva piorara. "Legal, sem encostos e sem pulmões!! O que mais posso querer?".
Então o coletivo deu um tranco e parou.
(...)
Continua...
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