12.26.2008

Passarelas - Parte III

Ela olhou ao redor e decidiu ir para casa. Perder uma aula não podia ser pior que assistir aula molhada do modo como estava.
Despediu-se de seu amigo e rumou em direção ao portão, onde um ônibus havia acabado de sair.
"Ótimo!" pensou ela.
Passados uns três minutos, chegou um desconhecido.
A faculdade era pequena, mas mesmo assim haviam sempre os desconhecidos.
Ela olhou receosa, mas logo se tranqüilizou, não parecia ser chato e não ficara olhando para ela por causa da roupa ainda molhada.
Ela estava viajando em suas músicas. Era muito comum vê-la com seus fones de ouvido com o olhar perdido em algum lugar do infinito.
Ouviu alguma coisa além da música e tirou um dos fones, o desconhecido havia se aproximado.
"Boa noite. Você está esperando o ônibus?"
Ela estava de mochila parada em frente à faculdade havia algum tempo, parecia meio óbvio que esperava o ônibus; mas ele foi tão educado que ela ignorou este fato.
"Sim, estou."
"Desculpa te incomodar, notei que estava distraida ouvindo música. Não querendo abusar, mas já abusando, você poderia me informar qual é o horário do próximo ônibus?"
Ela estava boquiaberta. Ele era educado e usava linguajar rebuscado. Deveras rebuscado...
"Qual é o seu nome?"
"Desculpa, te interrompi a música e nem me apresentei. Que mal educado eu! Sou o Miguel, e você?".
"Júlia. Se meu horário estiver correto, daqui a vinte minutos haverá um ônibus."
Eles começaram a conversar. Ele era alto, estava com barba por fazer e usava óculos. No meio da conversa ela notou um brilho dourado na mão dele. Era uma aliança. Ele era casado.
Ela preferiu não comentar nada.
Continuou conversando.
A conversa não foi interrompida pela chegada do ônibus. Conversaram até a chegada do ônibus no terminal.
Despediram-se e ela embarcou no coletivo.

Marcadores:

Rotina

Vejo os olhos, miçangas pretinhas feito jaboticabas maduras.
Olhou-me com cara de quem quer algo. Eu sempre atendia aos pedidos dela.
Cada pessoa tem seu modo de exercer o poder sobre as outras. Algumas o fazem usando força, outras amolecendo corações, algumas apenas olham com um jeitinho característico de quem convence. Ela sempre me contornava usando este último modo.
"Que queres?"
"Como sabes que de ti quero algo?"
"E não queres?"
"Sabes que quero. Fala-me algo bonito."
Mulher tem dessas coisas... do nada se sentem vulneráveis e fazem algo para ter atenção ou qualquer outra prova de que você está com elas.
Não gosto de fazer poemas quando estou sob pressão, qualquer coisa criada em tal situação parece falseada.
"Porque você quer que eu lhe diga algo bonito? Por acaso dúvida que eu te ame de verdade?"
"Não, apenas senti vontade de ouvir algo..."
"Me diga você algo bonito" Ela sempre se enrolava um bocado, mas acabava falando algo. no início as palavras soavam como as de um adolescente apresentando um seminário, mas logo ela se empolgava e as palavras tomavam ar sincero.
"Eu te olho e vejo... você, quer algo mais bonito?"
"Estamos sem inspiração no dia de hoje!!!"
"Não sou boa nisso, você sabe muito bem."
Ela então se afastou virando para o outro lado da cama com os braços cruzados e fazendo biquinho. Apesar de tê-la amado muito, desde o primeiro dia que falei com ela, achei-a ocasionalmente infantil. Quando ela cruzava os braços e fazia bico como naquela ocasião, tinha certeza de sua infantilidade.
"Ah... você fica tão bonita quando faz esse bico... desfaça-o ou vou mordê-lo."
Ela não desfez, o que deu início a uma verdadeira guerra de mordidas e cutucões.
Ela tornava minhas tardes muitíssimo agradáveis, mas com o tempo foi passando a fazer parte da rotina e eu nunca fui bom em lidar com rotinas, então resolvi dar um novo rumo às coisas e abrir mão daquelas jaboticabas tão pretas que me olhavam suplicantes vez ou outra.
Depois disso houve um certo silêncio...

Marcadores:

12.19.2008

O Mundo dos Adultos

Todos absolutamente iguais.
Vamos ao banco, rimos, choramos, cantamos quando não está ninguém ouvindo, pensamos antes de dormir, perdemos a noção do tempo quando fazendo algo de que gostamos... tudo. Fazemos as mesmas coisas de modo pouco diferente.
Matéria orgânica, água, oxigênio, adenosinatrifosfato, cloreto de sódio... os mesmos componentes.
O que nos difere senão nossos pensamentos? Há uma alma em cada um de nós?
Se existir alma, o pensamento tem que ficar armazenado nela, senão que sentido faz pensar?
Só eu tenho acesso ao que penso, sonho, planejo, penso, espero... Se nada disso ficasse guardado em algum lugar, seria muito disperdício de tempo e energia.
Há um Deus no final das contas? Ele é bonzinho como meu pai, mandão como o pai de outros, é gente como a gente, ou feito de energia e matéria desconhecida? Deus é feito de matéria e energia escura?
Se não podemos chegar a conhecê-lo em vida, será que faz sentido que fiquemos brigando entre nós para decidir (coisa que nunca acontece de verdade) quem está mais certo quanto a ele?
Faz sentido também lutar pela mudança de um sistema, um país ou do mun do, quando nossas vidas permanecem estagnadas?
Faz sentido que eu, Ana, decida não comer mais nada proveniente de animais para poupá-los da morte e tomar litros e mais litros de leite de soja, quando vários animais silvestres morreram quando decidiram desmatar a área para plantar soja?
Nada tem feito muito sentido...
Sou eu, ou o mundo dos adultos tem andado muito complicado?

Marcadores: ,

12.18.2008

Que Passa

A brisa passa por aqui
Leva cinsigo algo a mais
Ela pergunta se esqueci
E me convence a ir em paz
Os sete tempos que perdi de mim
As sete vidas que vivi em paz
Os quatro ventos que moram em mim
E um sussuro diz que 'tanto faz'

Encontro abrigo bem longe de mim
De pensamentos, sonhos e atenção
Meus verdadeiros sopros de existir
São uns fiapos de imaginação
Desvio o rosto pois não sei fingir
Tirei do vento hoje uma lição
Não bastam vidas, luas, ir e vir
Sem que hajam cores de imaginação

A brisa volta e me fascina
Não me cativa, me liberta
Já trago a porta sempre aberta
Sentir os poros me anima
Já não me basta ter na rima
O exercício que liberta
Preciso ter a frase certa
O meio tom e a ironia

Os trapos jogados
Os sonhos guardados
Os dias malvados
O corpo sedado
O tempo passado
O aviso não dado
O fim do recado
Extintos guardados

Marcadores:

12.14.2008

Passarelas - Parte II

(...)

"Ótimo!!" pensou ela.
Estava a três pontos do seu destino.
"Fodam-se os pulmões!". Desceu e seguiu caminhando na chuva.
Suas meias já estavam ensopadas. E ela já podia sentir a gripe se aproximando.
Resolveu buscar abrigo em uma livraria que havia no caminho.
"Boa tarde, posso ajudar?" Um rapazinho magricela perguntou com ar simpático.
"A menos que você tenha roupas secas e um par de pulmões novos não." pensou contendo-se para não exteriorizar seus pensamentos.
"Não, obrigada, estou só me mantendo fora da chuva. Vou dar uma olhada nos livros.".
Notando o esforço para não mandá-lo às favas, o rapaz se afastou.
Ela foi direto na prateleira onde estavam os livros de poesia.
Sempre havia gostado de poesias. Escrevê-las, leê-las. Com poesia, qualquer coisa!
O magricela, olhava-a com ar assustado.
"Hora de fingir ser educadinha...". Pegou um livro de literatura portuguesa, e se dirigiu até o rapaz: "Moço, vai ser esse aqui, sabe se é bom?".
A feição do rapaz mudou automaticamente. "Esse é um dos meus preferidos. Vai achar a linguagem meio difícil no começo, mas creio que vai gostar.".
"Linguagem difícil o caralho!!! É português de portugal, fichinha pra quem já leu eça de Queiroz" ela deixou escapar. Para a sua surpresa, o rapaz não se intimidou.
"Eça de Queiroz é realmente bom, mas não se compara a Fernando Pessoa".
"Veado, vem falar mal de Eça de Queiroz pra mim?" pode se conter. "Você tah comparando coisas incomparáveis!!!!" disse enfurecida.
A discussão estendeu-se até o final da chuva, ela comprou o livro e saiu da loja arrantando seus sapatos ensopados.
Como conseguia ser tão mal humorada e tão 'sociável' ao mesmo tempo?
Chegou à faculdade.
A faculdade era um lugar muito complexo. Mulheres competiam no quisito 'melhor modelito', mas ela nunca participava dessas competições. Estava sempre de calça jeans, blusinha e tênis.
Estar ensopada e descabelada não fazia dela uma beldade, mas nem por isso estava feia.
Tinha olhos grandes.
Naquele lugar sentia-se um pássaro fora do ninho, exceto quando estava com seus amigos.
Eram pessoas totalmente fora da média. ou muito inteligentes, ou muito bonitos, ou muito estranhos, ou muito engraçados... não havia um normal entre eles.
Um chato se aproximou.
"Oi!!! Veio nadando? Tah toda molhada!!!"
"Oi." Disse com cara de poucos amigos.
"Foi só uma brincadeira, não precisa me trucidar com os olhos."
"Posso ir sem rir, ou vou ter que forçar a risada?". Dito isso, virou e seguiu andando.
Odiava esse tipo de homem. Eram chatos, inconvenientes, sem graça e sempre que havia possibilidade davam em cima dela.
"Poxa, assim você quebra as pernas do rapaz" Era um amigo.
"Foda-se! nunca disse pra ele que ele podia falar comigo sem tomar uma dessas... como você está?".
As pessoas de lá se dividiam em grupos: amigos, colegas, chatos, conhecidos e promessas.
Amigos eram aquelas pessoas a quem ela contava os segredos e com quem ela se importava; colegas eram as pessoas com que ocasionalmente conversava, os chatos dispensam descrição, os conhecidos eram as pessoas do 'Oi!' e 'Tchau!'; promessas eram as pessoas que de algum modo a intrigavam.
(...)
Continua..

Marcadores:

12.11.2008

Passarelas - Parte I

"Das gotas que do céu caem
Só sei a baixa temperatura
Dos ócios que me acompanham
Dos excessos e das lacunas
Espero apenas a trégua..."

A trégua não veio mas ainda era esperada.
Entrou no shopping e lembrou das outras vezes em que lá estivera. Fobia social... era só o que lhe faltava.
Comprou seu bilhete e sob garoa, hora fina hora espessa, saiu de lá desejando que algo fora do comum acontecesse.
Se perdeu de sí e por muito pouco não atravessou a rua em frente a carros. Quase não atravessava aquelas ruas, sobretudo depois de saber que um amigo havia morrido atropelado alí naquela avenida.
Passarela... passarela...
Enquanto subia a ladeira segura que passava por cima dos carros avistou os prédios. Em um deles ela havia estado e conhecido coisas das quais não queria lembrar mas não podia esquecer.
"Trégua.. trégua".
Ao chegar do outro lado da passarela, notou que uma fila de coletivos estavam prestes a sair e a menos que correse, não conseguiria subir em nenhum deles. "Que se foda, hoje eu tenho tempo..." pensou ela.
Seus cabelos já pingavam, mas ela não se importava, desde que seus livros estivessem secos na segurança de seu lar, podia cair até uma tempestade. Como diziam alguns amigos "Tomar chuva é bom pra tirar encosto".
Finalmente chegou o coletivo. Ela embarcou e caminhou calmamente bendizendo sua paciência e vontade de esperar o próximo. Ela iria sentada, diferentemente dos apressadinhos que corriam para pegar os coletivos anteriores. A vida afinal não era tão ruim assim.
Olhando pela janela, se pegou lembrando das proibições que tinha violado. Era engraçado pensar que antes só visitava aquela região muito raramente e por motivos muito específicos. Agora que os motivos haviam cessado, estava ali quase todos os dias.
Soltou uma gargalhada.
A chuva piorara. "Legal, sem encostos e sem pulmões!! O que mais posso querer?".
Então o coletivo deu um tranco e parou.
(...)

Continua...

Marcadores:

12.03.2008

Sê los Lados

Dias que escolho
Neles me encolho
Passo o ferrolho
Fecho sem pensar
Passo pela escada
Encontro nas entradas
As horas ensaiadas
Um ensaio sem lutar
Olho os selos espalhados
Eles tem meus sete lados
Meu passado e meus pecados
Meu silêncio e meu cantar
Meus sinais de inocência
Meu ser alto e decadência
Minha falta de prudência
Meu sorrir e esperar
Esta clara impaciência
Não diz nada da ciência
Diz da pouca audiêcia
Do balir e do engasgar
Estes pontos de pendência
São pedaços de descrença
Meu maldizer e minha benção
Meu 'quero ir', meu 'devo estar'.

Há muito guardado pra se picotar.

Marcadores: ,

12.02.2008

Chuva

Queria saber uns detalhes, mas eles me foram negados. Sacio então minha curiosidade olhando vultos e ouvindo o sopro do vento.
Não há ninguém lá fora e nem há alguém por dentro.
A chuva cai suavemente, mas fora o frio que trouxe consigo, não me incomoda e nem é capaz de me tirar da embriaguez da mesmisse em que me encontro.
Os dias parecem perdidos então me perco na noite. Me protejo dos detalhes poucos que conheço.
Ou julgo conhecer...
Nem ao menos me conheço.

Marcadores: