8.30.2008

Temer o que tenho pensado
Rumar sempre ao ponto contrário
Indagar sobre a vida e o ensaio
Sobre os dias de ócio que trago
Ter em mente nada mais que incerteza
Estar bem, se fazer fortaleza
Zaguear e fingir a nobreza
Animar com, no peito, a tristeza

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Conflitos com o mundo (parte I)

O cheiro dos morangos recém cozidos tomava conta da casa.
Irritadíssima com a injustiça da qual havia sido vítima, a menina tristonha subiu ao seu quarto e ficou pensando.
Como podia?
Estava com raiva por ter cozido morangos inútilmente, com raiva da irresponsabilidade de terceiros para com ela. A falta de compromisso dava-a náuseas. Quando seu humor ficava deplorável daquele modo, tudo a nauseava.
Estava cansada de tudo aquilo. Queria sair, inovar, criar umas regras e quebrar outras. Queria meramente poder viver sua vida sem ter que sofrer as conseqüencias dos atos de outrem.
Lavou o rosto, e resolveu adentrar o recinto fingindo que nada lhe acontecera.
E então entrou em cena a grande atriz que ela sempre foi.
(continua...)

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8.27.2008

Metas

Meta na mente um afeto
Meta na mente é feto
Mente...a meta afetada
Meta silêncios na mente à pauladas
Meta medo ao desafeto
Minta às metas alteradas
Medos tenha em horas vagas
Medos, mentes...
Só palavras

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Almas Nobres com Vendas

Surgem em meio aos prédios
Rostos e números que não conheço
Surgem promessas que levam ao tédio
Chegam propostas pelo correio
Vote, acredite, vença
Faça parte desse belo circo
Venha conosco e seja o mico
Esteja conosco nesta doença
Num mundo onde tudo é negócio
E falta comida na mesa
Encontro quem troque seu voto
Por pão que se coloque à mesa
"Mas no horário político o governo pede que ninguém se venda"
Pedido mata toda a fome?
Paga a conta do fiado da venda?
Uns mistérios que o tempo desvenda...
Eis que um povo é munido de vendas
Vendados, vendidos
"ALMAS NOBRES À VENDA"

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8.19.2008

A Filha

A menina descalça atravessou a rua
Seus olhos marcados traduzem o medo
Uns dias de frio, um vazio em seu peito
A noitada forçada, aos cuidados da lua
Feito adulto guardado, se amigou com seus medos
Induziu-se ao pecado, se negou aos espelhos
Leu no mundo o recado, entendeu por inteiro
Hoje o leio em seus olhos, já não tenho receio
A carrego comigo, não a temo. A entendo.

Somos Pais dos Órfãos Criados pelo Sistema

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8.18.2008

Poente

Estava extremamente sensível naquela tarde.
O silêncio de seus pensamentos a irritava e a deixava preocupada. Normalmente estaria pensando em algo engraçado, divertido, útil, ou meramente maquinando o que faria no dia seguinte.
Sempre fora muito dada a solidão e aos seus pensamentos. Com o tempo, acabou se vendo rodeada de pessoas incríveis, o que fazia com que quase não tivesse tempo para refletir consigo mesma.
Seus momentos raros de reflexão proporcionavam-lhe paz. Com eles era capaz de silenciar a barulheira descontrolada de seus dias, ultimamente tão agitados.
Ela se levantou e notou que o sol estava se pondo. Achava muito gostoso contemplar o pôr-do-sol.
Havia se isolado dos demais já havia algumas horas. Perdida entre seus próprios pensamentos acabara perdendo a noção do tempo; mas ela já não se importava com isso.
A beleza da mistura das cores fez com que ela absorvesse algo, do mesmo modo como absorveu algo dela.
Ela ergueu os braços, esticou as pernas, ficou nas pontas dos pés e então foi capaz de alcançar o céu. Ela então misturou-se a ele.

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8.13.2008

Que liberdade há em nós?

Loucura, intensidade, maus lençóis....
Viver intenso com coragem exigida
Viver liberta, agir sem medo e sem saída
Correr os riscos que se pode em uma vida
Estar comigo e com meu ego sempre a sós
Desenho mundo, casa, mar e avenida
Escrevo o beco, o suor e a saliva
Escrevo muito sem lembrar que há uma vida
Viver seguro sempre é vício que há em nós
Viver problemas: compulsão por atar nós
Viver vazio: a ausência assumida dentro de nós
Nós: um égo, uma corda e seus nós

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P.Q.P

Ainda sinto o doce frio
Escondo a face em meus sonhos
Não abro mão do arrepio
Me sinto um ébrio, cão vadio
Me négo aos dias enfadonhos
O cálice antes tão vazio
Me trouxe dores, ar tristonho
Agora o encho de um barril
Escolho amigo, ser senil
Afio a lança que o feriu
Com ela saio à rua e grito:
"Às favas.... PUTA QUE O PARIU"
E então acordo de um sonho

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